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Entrevistas

“O medo é sim uma resposta natural a tudo isso”, afirma psicólogo sobre pandemia

A pandemia do novo coronavírus tem sido um desafio para a saúde física, mental e social. O medo da doença e as práticas de isolamento e distanciamento trouxeram uma leva de conflitos internos, como descreve o psicanalista e escritor, Marcelo Arruda.

Em abril, ele lançou o livro “Você”, uma abordagem humanista através da psicoterapia. Um livro que fala sobre a vida de cada um, e faz cada um pensar sobre seu presenta, passado e o seu futuro. Em conversa com a 15 News, Arruda descreve essas sequelas em cada faixa etária e as peculiaridades para a vida dos casais.

O psicólogo fala também sobre os prejuízos que a ausência de interação social pode provocar caso não saibamos lidar com ela. “Se não transformarmos esse sofrimento em solidariedade é provável que as sequelas durem mais tempo”, pontua.

O momento que estamos vivendo causa medo?
Sim, e é algo natural! O que primeiro temos que entender neste momento de pandemia e de isolamento é que inevitavelmente teremos de enfrentar sentimentos como tristeza, medo, ansiedade e estresse. O que precisamos é saber administrá-los! Este contexto atual nos forçou mudar nosso estilo de vida, e toda mudança assusta. Os seres humanos, naturalmente buscam e prezam por uma rotina, um estilo de vida ao qual nos adaptamos e ali nos sentimos seguros.

O vírus alterou completamente este estilo de vida, faz com que saiamos de nossa zona de conforto e viver fora dessa zona de conforto, sempre será um desafio. Ainda mais quando esta mudança vem acompanhada de uma ameaça real como é o caso da pandemia, onde existe o medo da contaminação e também das consequências desta quarentena.   Portanto, medo é sim uma resposta natural a tudo isso, prezamos por nosso estilo de vida, nos sentimos seguro dentro desta “bolha” e caminhar fora dela sempre será assustador pois perdemos o sentimento de “normalidade” e de “controle” sobre nossas vidas.

A faixa etária em que estamos, influencia no modo de passar por essa quarentena?
Sim, a experiência da pandemia e do isolamento social será percebida de formas diferentes não só de acordo com a idade, mas também variará de acordo com a religião, classe social, experiência de vida e outros fatores.

Cada qual vivenciará esta situação de acordo com seus “filtros” e a idade sem dúvida é um fator que influencia na percepção. Se pensarmos nas crianças, elas tendem a criar uma enorme fantasia sobre a situação, é comum que considerem o Corona vírus como um monstro mau ou algo do tipo, uma tentativa de personificar e entender o que a elas é tão abstrato. Já os adolescentes, em regra, adotam uma postura mais rebelde, o que é típico da idade, não manifestando medo da situação e nem seguindo devidamente as orientações.

Quando pensamos nos idosos, é comum entre eles simplesmente negarem os fatos. Geralmente são pessoas que possuem um apego ainda maior em suas rotinas tendo mais dificuldades em muda-las.

Os relacionamentos amorosos também sentiram a quarentena?
Podem sentir sim. O simples fato de haver um aumento no tempo da convivência também aumentará a chance de haverem discordâncias entre os casais. Além disso, o trabalho e a vida social de cada indivíduo muitas vezes serve como uma forma de aliviar o estresse diário, quando tudo isso é tirado de um dia para o outro, o nível de estresse certamente aumentará.

Imaginemos o homem que era acostumado a encontrar seus amigos no bar e ali beber, conversar e se distrair, ou a mulher que tinha o hábito de participar de happy hour com as amigas, frequentar alguma academia ou mesmo realizar alguma atividade física na rua ou parque e subitamente perde isso.

Muitos deixaram de praticar atividades que serviam como formas de relaxar e extravasar, isso terá um peso. E pra piorar, o medo da pandemia e das consequências do isolamento, também é, em muitos casos, um fator estressante a mais. 

A ausência de interação social física pode trazer danos?
Somos seres sociais, dependemos do outro para sobreviver, o brasileiro em especial é um povo caloroso, afetivo, nossa cultura valoriza muito o abraço, o contato físico, festas e aglomerações.

Quando isso é tirado subitamente, podemos sim experimentar sensações negativas. É o que disse sobre uma mudança na rotina, neste caso especifico, deixamos de lado ações que nos identificamos culturalmente, que nos permitia transmitir emoções obviamente, romper com tudo isso terá seu preço. Principalmente nos casos em que familiares antes tão próximos, resolvem se afastar, como ocorreu em muitas famílias que optaram em afastar avós e netos. 

O álcool, remédios e drogas se tornaram um meio de fuga?
Quando estamos diante de um problema, comportamentos de “fuga” passam a ser cogitados.   Se muitas das maneiras que o indivíduo usava para relaxar e se entreter estão impossibilitadas, por que não apelar para um destes meios de fácil acesso? Evidentemente não é um caminho viável, por mais que estes recursos possam trazer alguma rápida sensação de alívio, os efeitos colaterais prejudicarão ainda mais o indivíduo. É, portanto, uma via que não devemos considerar.

Vale interação via telas de computadores e telefones?
Vale sim, é uma maneira de não romper totalmente com nossos amigos e familiares. Hoje em dia a tecnologia propicia uma infinidade de formas de se relacionar com pessoas distantes. Podemos e devemos fazer uso destas ferramentas que por mais que não substituam o contato real, promovem algum consolo e permite que externemos nossos sentimentos.

Por quanto tempo teremos os reflexos desta pandemia na saúde mental?
A OMS já alertou que ocorrerá um surto de distúrbios psicológicos no mundo, é um caminho inevitável, a proporção e o tempo com que cada um lidará com tais consequências é um fator extremamente subjetivo. Vai depender da cultura, religião, nível de escolaridade, gral de cometimento deste suposto surto, vai depender também de quando e como esta problemática foi enfrentada, com certeza há países que já estão se preparando para esta demanda de serviços psicológicos enquanto outros sequer reconhecem tal demanda. A experiência e perfil psicológico de cada indivíduo também pode ser um diferencial.

Como, então, passar melhor este momento?
A rotina sempre é uma aliada ao equilíbrio psicológico, é necessário que encontremos uma certa rotina dentro deste isolamento social. Principalmente as pessoas que tiveram seu cotidiano muito afetado, devem, até que tudo se normalize, estabelecer uma nova rotina. Devemos também manter vivas as expectativas, acreditar que mesmo que o mundo tenha dado uma parada, ele continuará, devemos nos projetar em um momento pós pandemia, pensar sobre o que faremos? Como faremos? O que mudaremos? É mais ou menos aquele ritual de planejamento e mudanças que fazemos a cada fim de ano e que promovem certa motivação.

É um momento também de se aproveitar e reaver antigos projetos e praticas que abandonamos ao longo da vida alegando falta de tempo. Então, se você gosta de desenhar, dançar, pintar, se tinha o plano de aprender inglês, informática ou outro curso qualquer, este é o momento perfeito. É importante também que desliguemos um pouco de todo este clima negativo, não precisa ficar o tempo todo ligado nas notícias, é importante se atualizar e estar ciente da situação atual, mas um excesso de informação pode prejudicar.

O medo é o que faz muitas pessoas negarem a existência e os danos do Covid-19?
Quando estudamos Freud, ele nos ensina sobre os mecanismos de defesa, a negação é o mais primitivo e mais comum dos mecanismos de defesa que costumamos usar. Diante de uma situação assustadora ou constrangedora, é comum que as pessoas apelem para o mecanismo da negação. Se eu nego o fato não preciso enfrentar as consequências. Portanto, sim, muitas pessoas simplesmente negam a existência do vírus ou diminuem seus efeitos por medo deste ou das dificuldades que terão em realizar as mudanças necessárias.  

Os sentimentos neste momento estão mais intensos?
Esta pandemia mexeu com os sentimentos de todos, estamos sim mais intensos, quer para o bem ou para o mal, costumo dizer que os momentos de crise revelam o melhor ou o pior das pessoas. Se observarmos, teremos centenas de exemplos maravilhosos de atitudes ocorridas durante a pandemia como também exemplos péssimos. Felizmente, creio que os bons exemplos prevalecem.

E o luto?
O luto sempre tem seu rito próprio experimentado por fases, o agravante no caso das mortes ocorridas pelo covid-19 é que uma parte importante para realização do luto não ocorre, estou falando dos velórios que muitas vezes eram acompanhados de ritos religiosos e contribuíam para o conforto e aceitação dos parentes da vítima. Esse agravante deixa este momento de dor ainda mais complicado, mas, a vida necessariamente segue seu ritmo e para a grande maioria das pessoas, tal como ocorre em outras situações, o luto será superado.

Existe uma fórmula comum para todos lidarmos com a pandemia?
Aquelas dicas que apresentei certamente ajudarão, porém, evidentemente não existe uma fórmula única para todos. Cada qual vivenciará este momento do seu modo e assim, deve identificar formas eficientes e adequadas para o enfrentamento deste momento. Vejo como uma grande oportunidade para que cada qual pare e pense sobre sua existência e seu propósito nesta vida.

É fato que estávamos todos inseridos em um estilo de vida que precisava ser revisto, um estilo que prezava o individualismo e o consumismo exagerado, quem sabe este caos mundial não faça com que cada um tenha a oportunidade de se autoavaliar e pensar sobre sua existência buscando um caminho mais humanizado e harmonioso.

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