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A pequena Valentina – parte 1

Dizem que os pais não tem filho favorito, que amam ambos igualmente, que tudo o que fazem para um fazem para o outro com o mesmo amor.

Dizem…

Havia uma família onde o amor não era oferecido na mesma medida.

Assim que Catarina nasceu, trouxe consigo uma imensa e necessária paz para a pequena família. Seus pais, Giovana e Fernando, a planejaram, a desejaram, a esperaram e a amaram no instante em que sua existência foi descoberta.

Fernando sempre sonhara com uma família para chamar de sua, sonhava com uma esposa e filhos, muitos filhos. Quando conheceu Giovana sentiu, já no primeiro contato, que ela seria sua família. Para ela, assim que o viu, a sensação foi parecida. Embora nunca tivesse sonhado ou desejado uma família soube, no instante em que conheceu Fernando, que algo forte, bonito e (tomara!) eterno havia nascido ali.

Saíram juntos por algumas semanas, até que decidiram assumir namoro. Namoraram por 2 anos e, então, ficaram noivos. Permaneceram noivos durante 1 ano e meio, até que, enfim, se casaram.

Foi um casamento simples, romântico e lindo. A realização do sonho que ele sempre teve, a realização de um sonho que ela nem sabia que tinha.

Construíram todas as coisas juntos, planejaram todas as coisas juntos e quando estavam completos, decidiram que era hora de transbordar.

Não foi difícil nada difícil, pelo contrário, em pouco tempo já estavam desocupando um cômodo para fazer o quarto do bebê, ou melhor, da bebê segundo Fernando.

E ele acertou.

Quando o ultrassom mostrou Catarina, os dois transbordaram e continuariam transbordando até que o amor começasse a diminuir.

Por motivos tolos eles passaram a brigar, e a cada briga Catarina gritava, chorava e se desesperava, ela sentia a raiva e a dor dos pais. Giovana e Fernando tentavam não brigar na frente da pequena menina, mas não conseguiam se segurar. Eles haviam transbordado tanto, mas tanto, que tudo estava escorregadio, nenhum momento bom ficava preso, e todas as boas sensações vazavam pelos dedos. Os braços não seguravam o outro, as mãos não se tocavam mais, os olhos não se olhavam mais e Fernando se tornou cada vez mais apegado a Catarina.

Os dois eram tão unidos e tão completa e absolutamente apaixonados um pelo outro, que não havia, em Catarina, nenhum espaço para sua mãe, que sofria vendo aquilo que sua família tinha se tornado.

Decidiu, depois de muitas lágrimas e muita dor causadas pelas palavras do marido e pela indiferença da filha, dar um ultimato que, ou salvaria seu casamento, ou faria com que ele morresse de vez.

Esperou o marido chegar do trabalho com a filha, que ele passava para buscar na escola, com um delicioso café da tarde recheado de tudo que os três gostavam.

Catarina ficou muito feliz, e com sua voz fina e aguda agradeceu a mamãe pela surpresa. Fernando, com sua voz firme e estridente, sorriu e, com um afeto que há tempos não havia, abraçou sua esposa. Giovana então acreditou na possibilidade de salvar seu não sonhado, mas muito amado casamento, e não estava completamente errada, durante a noite se entregou ao seu marido como há muito tempo não fazia.

A surpresa veio 1 mês e meio depois.

Ela estava exausta, estressada, frágil, chorona e com muito, muuuuito enjoo.

Não sabia o que sentir diante dessa possibilidade, mas quando o exame confirmou, sentiu-se feliz e preparou uma linda surpresa ao marido que não reagiu da forma esperada diante da notícia, mas, segundo Giovana, poderia ser pior. Com pouquíssimo entusiasmo ele disse sorrindo

– Se for um menino, tudo bem. Não sou capaz de dividir esse amor que eu tenho só para a minha menininha.

Catarina, que estava no canto ouvindo toda conversa, correu para os braços do pai e chorou em seus ombros, pedindo para que ele nunca amasse ninguém como a amava. Sem nenhuma lágrima em seus olhinhos não tão doces, ela sorriu ao ouvir a promessa feita pelo pai.

A barriga de Giovana foi crescendo, seus enjoos foram aumentando e a indiferença, que antes vinha só de Catarina, passou a vir do seu marido também. Ela estava sentindo que a segunda vez que seria mãe, teria que fazer isso sozinha, e estava tentando lidar com isso da melhor forma possível, mas não imaginava o que estava por vir.

Quando o sexo de Valentina foi confirmado, a indiferença do marido e da filha ganhou uma companhia nada agradável: a raiva.

Catarina andava para cima e para baixo dizendo, no auge de seus 6 anos, que odiava a irmãzinha que a mamãe estava esperando, mas que não se importava muito porque o seu papai jamais a amaria.

Giovana sentia calafrios sempre que via o marido concordando com as maldades da filha.

Quando Valentina nasceu, Fernando estava lá olhando e observando tudo, mas só fisicamente, suas emoções, seus sentidos não estavam ali. Os medos de Catarina se tornaram reais no exato instante em que o choro da recém nascida tomou conta da sala de parto. Fernando mal olhou para a filha e, segundo ele, correu para ver como Catarina estava se sentindo, afinal, ela era a única que realmente importava.

Quando foram para a casa, Giovana e Valentina tiveram que ir sozinha, Fernando não apareceu para buscá-las.

Chegaram em casa completamente exaustas mental e fisicamente, e deram de cara com uma surpresa nada agradável.

Em seu quarto havia a cama de casal, e a cama de Catarina.

No pequeno quarto das meninas havia um berço e um colchão no chão. Aquele, disse Fernando, seria o quarto de Giovana e Valentina. E assim foi.

Valentina chorava quase o tempo todo, e quanto mais os médicos diziam que não havia nada de errado com ela, mais insuportável seu choro ficava. Quando, depois de muitas horas de balanço, carinho e música, ela conseguia dormir, Catarina e Fernando começavam a rir no quarto ao lado e, assim, o choro de Valentina recomeçava.

Para a irmã e para o pai, Valentina era simplesmente insuportável. Não havia a menor possibilidade de ficarem perto dela e de Giovana.

As duas estavam completamente sozinhas no mundo, e Giovana prometeu a si mesma, que seria o suficiente para a filha mais nova, mas sua alma doía a cada vez que o olhar raivoso de sua filha mais velha a atingia, e cada vez que o olhar apático de seu marido acertava a pequena Valentina.

Conforme Valentina crescia, crescia também o ódio dentro daquela casa. A pequena foi se mostrando extremamente dependente, seus choros eram cada vez mais fortes, desesperados e desesperadores. Quando começou a falar, relatava uma infinidade de dores.

Doía sua cabeça, seu ouvido, seus olhos, suas pernas, sua coluna… a pobrezinha, que já engatinhava há tempos e dava seus pequenos passos para lá e para cá, chegou a ficar praticamente sem se mexer, porque sua coluna havia travado.

Ela era levada a diferentes médicos com frequência, mas todos diziam a mesma coisa: a menina não tem nada.

Noites sem dormir, tristeza nos olhos de sua pequena, dores que ela claramente sentia… tudo isso fez com que Giovana procurasse outra alternativa e decidiu levar a menina em uma bruxa.

Saiu de casa ansiosa e amedrontada, chegou ao seu destino sem saber relatar exatamente o que ocorria, mas a mulher foi enfática dizendo que tudo de mal que havia ali, estava na própria casa. Giovana devia procurar por esse mal e acabar com ele, pois apesar de Valentina não ser doente fisicamente, a pobrezinha estava constantemente sendo atingida na alma.

Giovana saiu de lá atordoada, não sabia se havia entendido direito, não sabia se aquilo era real, se a mulher era confiável ou não. Nada daquilo fazia sentido, ela e o marido se amavam, haviam construído uma história juntos, como é que tudo aquilo havia se perdido? Como é que Catarina, a filha tão desejada, tão amada por ela havia se tornado tão indiferente a tudo que estava relacionado a mãe? A mãe que a havia gerado por 9 meses, a mãe que a amou no instante que soube da sua existência. Giovana chorou o caminho todo com uma Valentina sonolenta presa a seus braços, mas assim que chegou em casa ouviu risos muito alegres de seu marido e filha.

Respirou fundo e decidiu entrar em silêncio, queria fazer com que sua presença não fosse notada. Valentina acordou e o coração de Giovana quase parou, mas, como num instinto para salvar a própria vida, a menina permaneceu em silêncio.

Tirou os sapatos e subiu as escadas quase sem respirar. O único som que vinha de Giovana eram as batidas do seu coração.

Valentina, tão quietinha como nunca antes estivera, começou a resmungar, mas sem fazer muito barulho. Giovana olhou para filha e notou que ela lutava para permanecer em silêncio. Seus olhinhos estavam arregalados e aguados, suas bochechas foram ficando vermelhas e Giovana sabia, algo não estava bem, algo estava causando dor.

Lembrando do que a bruxa havia falado, Giovana sabia que não podia desistir, precisava encontrar esse mal, e sabia que aquela era sua melhor oportunidade.

Parada na porta do quarto que um dia foi seu e de seu marido, Giovana deu um longo suspiro e abriu a porta. Sua respiração parou diante do que viu, Valentina começou a gritar como nunca.

Fernando e Catarina, brincando com uma boneca de pano muito parecida com a pequena Valentina, riam alto a cada vez que colocavam agulhas no corpo mole da boneca.

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